Fui procurado por um morador de Nanuque que me sugeriu verificar os gastos da Prefeitura com viagens. Na conversa, ele afirmou que “o prefeito e os secretários estariam fazendo uma farra com as diárias” e então resolvi verificar.
Acessando o Portal da Transparência do município passei a analisar, ano a ano, os registros de despesas com diárias e outros custos relacionados a viagens a partir de 2021 e os números, de fato, chamam a atenção.
R$2.135.458,15 esse é o valor exato gasto pela prefeitura de 2021 à 2025. São diárias e gastos com combustível e passagens para deslocamento,tanto de funcionários da prefeitura, como motoristas, profissionais da área da saúde, agentes de combate a endemias, entre outros, além dos secretários, prefeito e vice-prefeito.
Parte considerável dessas despesas está ligada a deslocamentos rotineiros de funcionários da prefeitura como, por exemplo, buscar e levar pacientes a Teófilo Otoni, entre outras ações fundamentais à população Nanuquense. Mas vamos analisar em detalhes.
A evolução dos gastos
Os gastos da Prefeitura de Nanuque com viagens variaram de forma significativa entre 2021 e 2025, alternando períodos de retração e retomada até atingir, no último ano da série, o maior valor: mais de 500 mil reais em gastos.
2021: R$ 487.864,67
2022: R$ 381.753,48 (–21,7%)
2023: R$ 387.365,00 (+1,5%)
2024: R$ 356.675,00 (–7,9%)
2025: R$ 521.800,00 (+46,3%)
Após atingir um gasto de R$487.864,67, em 2021, a prefeitura reduziu de forma significativa os gastos em 2022, alcançando o valor de R$381.753,48. Em 2023, houve um pequeno aumento – chegando a R$381.753,48 -, seguido de nova retração em 2024, quando o valor atingiu R$356.675,00. O padrão de queda foi rompido em 2025, quando as despesas com viagens aumentaram 46,3% em relação a 2024, alcançando o maior valor do período analisado: R$521.800,00.
Na comparação entre 2021 e 2025, o aumento foi de quase 7%, com uma média anual de gastos girando em torno de R$427 mil.
O aumento expressivo registrado em 2025 contrasta diretamente com o discurso adotado pelo próprio Gilson Coleta. Em 25 de julho de 2025, o prefeito editou o Decreto Municipal nº041/2025, que estabelece medidas de contenção de despesas diante da queda de arrecadação e da insuficiência de repasses federais e estaduais.
Entre os pontos centrais do decreto, dois chamam atenção à luz dos dados apurados. O inciso X determina o “controle e racionalização de empenho de diárias e ajuda de custos, devendo tal contenção atingir a margem de redução de 20%”. Já o inciso XI prevê o “controle e racionalização do consumo de combustível”, com prioridade para ambulâncias e Na prática, porém, os números mostram que 2025 foi justamente o ano de maior gasto com viagens de toda a série analisada, alcançando R$ 521.800,00, um aumento de 46,3% em relação a 2024. Ou seja, enquanto o decreto editado pelo prefeito Gilson Coleta anunciava contenção, racionalização e redução de despesas com diárias e combustível, a execução orçamentária seguiu no sentido oposto.
Mais do que isso: os dados indicam que esse aumento não foi puxado por despesas operacionais essenciais, como transporte de pacientes ou serviços de rotina, mas concentrado justamente no alto escalão da Prefeitura. Prefeito, vice-prefeito, chefe de gabinete e secretários foram os principais responsáveis pelo crescimento das despesas com viagens no período, em evidente desalinhamento com o discurso oficial de austeridade.
Entre 2021 e 2025, prefeito, vice-prefeito, chefe de gabinete e secretários municipais concentraram R$758.526,02 em despesas com viagens, o equivalente a mais de um terço de todo o valor gasto pela Prefeitura de Nanuque com deslocamentos.
Desse grupo, a maior concentração de despesa está entre o prefeito, vice-prefeito e chefe de gabinete que representaram aos cofres públicos de Nanuque um gasto de R$432.794,78, o que corresponde a 57,1% de tudo o que o alto escalão gerou de despesa para o município em suas viagens.
O descompasso entre gasto político e realidade social
A análise dos gastos com viagens ganha outra dimensão quando confrontada com os indicadores socioeconômicos de Nanuque, divulgados pelo IBGE. Em 2023, por exemplo, o salário médio mensal dos trabalhadores formais em Nanuque era de 1,8 salário mínimo, posicionando o município entre os piores desempenhos relativos tanto no ranking estadual quanto nacional.
Ainda segundo o IBGE, 36,9% da população vivia com rendimento mensal de até meio salário mínimo, um dado que evidencia a persistência de baixa renda e vulnerabilidade social. Trata-se de um cenário em que a maior parte da população depende diretamente da capacidade do poder público de priorizar políticas de proteção social e serviços básicos.
É controverso para um município com histórico de restrição fiscal e forte dependência de transferências externas, onde prefeito, vice-prefeito e secretários tenham destinado mais de R$750 mil a despesas com viagens em apenas cinco anos. O valor representa uma fatia expressiva do orçamento municipal e evidencia escolhas da gestão Gilson Coleta que merecem atenção da população nanuquense.
Clique aqui e Baixe o Edital Completo
O Farofa News deixa o espaço aberto para que a prefeitura Municipal de Nanuque, bem possa se manifestar.
Caio Barroso é jornalista, com MBA em Ciência Política; especialização em Gestão Pública; e pós-graduação em Políticas Públicas e Direitos Sociais. É também membro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji)
