O gigante do varejo brasileiro, Americanas, enfrenta um dos períodos mais desafiadores de sua história, com um colapso econômico que tem redefinido sua presença no mercado nacional. Desde o pedido de recuperação judicial em janeiro de 2023, a outrora onipresente rede de lojas tem testemunhado uma retração drástica, perdendo aproximadamente 22% de seu tamanho original em termos de unidades físicas. O número de lojas fechadas surpreende e serve como um duro lembrete da turbulência que assola a empresa, impactando não apenas sua estrutura operacional, mas também sua base de clientes e relevância no crescente cenário digital. Esta reportagem detalha o progressivo encolhimento da Americanas, suas implicações e os desafios monumentais que a companhia enfrenta para reverter a atual trajetória.
A retração alarmante das americanas
A trajetória da Americanas, que já foi sinônimo de expansão e presença capilar em todo o Brasil, inverteu-se drasticamente. O que antes eram planos ambiciosos de abertura de novas unidades, agora se traduz em um fechamento contínuo de portas, delineando um cenário de fragilização para a companhia. A recuperação judicial, inicialmente vista como um caminho para a reestruturação, tem sido acompanhada por uma série de decisões operacionais que visam “redimensionar” a empresa, mas que na prática refletem uma perda significativa de terreno e poder de mercado.
A queda no número de unidades físicas
Em janeiro de 2023, quando a Americanas solicitou sua recuperação judicial, a rede operava com robustas 1.880 lojas espalhadas pelo território nacional. Desde então, o cenário mudou radicalmente. Até dezembro de 2024, esse número já havia caído para 1.663 estabelecimentos, representando uma redução de 217 unidades em quase dois anos. A contração, contudo, não parou por aí. No decorrer de 2025, até o momento da última contagem, mais 193 pontos de venda foram desativados, totalizando agora 1.470 lojas em funcionamento. Isso significa que, desde o início da recuperação judicial, a Americanas perdeu aproximadamente 410 lojas, uma queda de cerca de 22% em sua presença física.
Fechamentos notórios ilustram a gravidade da situação. A unidade do Shopping Iguatemi, um dos endereços mais valorizados de São Paulo, encerrou suas atividades de forma emblemática, com prateleiras vazias e relatos de aluguéis em atraso. Este fechamento, em um local de alto prestígio, não foi apenas uma decisão operacional; simbolizou o declínio silencioso de um ícone do varejo em um centro financeiro pulsante. Outro exemplo contundente é a loja da Avenida Nilo Peçanha, em Duque de Caxias (RJ), que foi vendida e será convertida em um supermercado Guanabara. A mudança de bandeira em um espaço antes ocupado por um gigante do varejo é um sinal inequívoco de perda de território e da crescente pressão competitiva. Embora a empresa sustente que esses movimentos fazem parte de um plano de “transformação e redimensionamento” focado na jornada do consumidor e na aderência ao modelo de negócio atual, a realidade observada é de uma rede cada vez menor, mais concentrada e inegavelmente fragilizada.
O fracasso digital e a perda de clientes
Apesar da narrativa institucional de “ajustes naturais do varejo”, os números revelam uma fragilidade estrutural da Americanas, especialmente no que tange à sua capacidade de adaptação às novas dinâmicas do mercado. Em uma era dominada pelo comércio eletrônico e pela onipresença digital, a dependência quase absoluta das lojas físicas expõe um gargalo crítico para a sustentabilidade da empresa.
A dependência do varejo físico em era digital
Os dados de vendas de dezembro de 2024 são reveladores. Dos impressionantes 150,66 milhões de itens comercializados pela rede, um esmagador percentual de 99,98% saiu das prateleiras das lojas físicas. Em contraste, o desempenho no ambiente digital foi praticamente insignificante, com apenas pouco mais de 26 mil itens vendidos online. Este abismo entre o físico e o digital é uma das maiores vulnerabilidades da Americanas. Em um cenário onde a conveniência e a agilidade do e-commerce se tornaram pilares fundamentais da experiência de compra, a incapacidade da empresa de consolidar uma presença digital robusta compromete severamente suas perspectivas de recuperação e crescimento.
A falta de uma estratégia digital eficaz não é apenas um problema operacional; é uma falha estratégica que isola a Americanas de uma parcela crescente de consumidores que migraram para as plataformas online. Enquanto concorrentes investem pesadamente em logística, marketplaces e tecnologia para aprimorar suas vendas digitais, a Americanas permanece refém de um modelo de negócios que, embora tradicionalmente forte, mostra-se insuficiente para as demandas do século XXI. Essa dependência do ponto físico não só limita o alcance da empresa, mas também a torna mais suscetível a flutuações econômicas e mudanças nos hábitos de consumo, expondo fragilidades que precisam ser urgentemente endereçadas.
A debandada de milhões de consumidores
A retração física e o atraso digital da Americanas têm um impacto direto e preocupante na sua base de clientes. Os consumidores, que antes viam na rede uma opção diversificada e acessível, estão migrando para outras plataformas e varejistas. Em dezembro de 2024, a Americanas registrava 47,3 milhões de clientes ativos. No entanto, até meados de 2025, esse número caiu para 40,8 milhões, o que representa uma perda de 6,5 milhões de consumidores em poucos meses.
Essa debandada de clientes é um sinal claro de que a confiança e a lealdade à marca estão sendo erodidas. Menos lojas significam menos pontos de contato e menos conveniência para quem prefere a compra física. A ausência de uma experiência digital competitiva afasta aqueles que buscam a praticidade do e-commerce. A combinação desses fatores resulta em uma espiral negativa: menos lojas, menos vendas digitais e, consequentemente, menos clientes. A recuperação da Americanas dependerá fundamentalmente de sua capacidade de reverter essa tendência, reconquistando a confiança do consumidor e adaptando-se às suas novas expectativas e hábitos de compra.
Perspectivas e desafios para a recuperação
A Americanas enfrenta uma encruzilhada crítica. O cenário atual, marcado por um colapso econômico significativo, a perda de centenas de lojas e milhões de clientes, além de uma evidente deficiência no setor digital, aponta para a necessidade urgente de uma reestruturação profunda e eficaz. A retração de 22% em sua rede física desde o pedido de recuperação judicial, aliada à quase total dependência das vendas em lojas físicas em um mundo cada vez mais conectado, demonstra os desafios monumentais à frente. A empresa precisa não apenas estabilizar suas operações, mas também redesenhar sua estratégia para o futuro, abraçando de forma contundente o e-commerce e buscando reconectar-se com os consumidores para reverter a espiral de declínio e tentar recuperar sua posição de gigante do varejo brasileiro.
Perguntas frequentes sobre a crise das americanas
Quantas lojas Americanas fecharam desde a recuperação judicial?
Desde o pedido de recuperação judicial em janeiro de 2023, a Americanas já fechou aproximadamente 410 lojas, reduzindo sua rede de 1.880 para cerca de 1.470 unidades ativas.
Qual o papel do e-commerce na crise da Americanas?
O e-commerce representa uma das maiores fragilidades da Americanas. Em dezembro de 2024, 99,98% das vendas foram realizadas em lojas físicas, com o digital respondendo por uma parcela insignificante, expondo a incapacidade da empresa de se adaptar à era digital.
Quantos clientes a Americanas perdeu recentemente?
A Americanas perdeu cerca de 6,5 milhões de clientes ativos. O número caiu de 47,3 milhões em dezembro de 2024 para 40,8 milhões em meados de 2025, evidenciando a erosão da base de consumidores.
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