Medicamentos que nem sempre estão disponíveis na farmácia, falta de médico e atendimento demorado; ou ainda ruas esburacadas e aquela sensação de que a cidade não evolui, não cresce. Você se identifica com algumas dessas situações? Em cenário como o de Nanuque, cada escolha de gasto feita pela administração municipal tem impacto direto sobre a qualidade de vida da população.
É a partir dessa realidade que se torna necessário examinar com atenção para onde estão sendo direcionados os recursos públicos – especialmente quando despesas crescem de forma contínua como as viagens do chefe de gabinete.
Encerrando a série de reportagens sobre os gastos com viagens da Prefeitura de Nanuque, a análise agora desloca o foco do prefeito para um personagem que aparece de forma recorrente nos registros oficiais: o chefe de gabinete do Executivo municipal.
O levantamento feito por meio do Portal da Transparência mostra que José Antonio Santos da Silva, conhecido como João, passou a gerar uma despesa crescente com diárias e reembolsos, acompanhando o prefeito em sucessivas agendas fora do município, ampliando o custo dessas viagens para os cofres públicos, sobretudo a partir de 2023.
Os dados revelam uma escalada contínua nos valores pagos em diárias ao chefe de gabinete ao longo dos últimos cinco anos. Veja:
- 2021: R$3.150,00 (período anterior à chefia de gabinete)
- 2022: R$6.130,00
- 2023: R$11.413,79
- 2024: R$20.468,26
- 2025: R$48.444,34
Em termos práticos, o valor anual pago em diárias a João multiplicou por mais de sete entre 2021 e 2025. Dentro desse período destacamos 2024 e 2025, quando as despesas saltaram de R$ 20.468,26 para R$ 48.444,34, um aumento de aproximadamente 137%.





Link do Portal da Transparência para que você mesmo possa fazer as pesquisas dos gastos públicos do municipio de Nanuque/MG https://nanuque-mg.portaltp.com.br/consultas/despesas/pagamentos.aspx
O Chefe de Gabinete de Luxo
O perfil de pagamentos registrados em 2024 ajuda a dimensionar o salto observado no ano seguinte. Naquele ano, as despesas do chefe de gabinete apresentavam valores mais baixos, concentradas em diárias de curta duração, majoritariamente para Belo Horizonte, além de reembolsos pontuais de abastecimento, quase sempre vinculados ao acompanhamento do prefeito em algumas agendas.
Do total de R$ 20.468,26 registrado em 2024, metade – R$ 10.000,00 – refere-se a um empenho classificado como concessão de apoio financeiro a ações culturais, no âmbito da Lei Paulo Gustavo (Lei nº 195/2022), vinculado ao projeto “Nanuque entre Sonhos e Desafios”, tendo João como favorecido. Assim, considerando esse empenho específico, o volume de despesas com viagens é ainda menor comparando a 2025.
Então chegamos a 2025. Foi justamente no ano passado que os registros do Portal da Transparência passaram a indicar um aumento expressivo das viagens do chefe de gabinete acompanhando o prefeito, com maior frequência, valores mais elevados e repetição de agendas fora do município.
Datas, destinos e justificativas se repetem, resultando em mais despesas para o município no exercício de uma mesma atividade. É como entrar numa loja e pagar duas vezes pelo mesmo produto, mas levar apenas um.
Para se ter ideia, o prefeito Gilson Coleta e João, seu chefe de gabinete, estiveram juntos em pelo menos nove agendas oficiais fora de Nanuque, conforme registros do Portal da Transparência. Somadas, essas agendas compartilhadas consumiram R$74.594,65 em diárias e reembolsos, sendo R$46,1 mil referentes ao prefeito Gilson Coleta e R$28,4 mil ao chefe de gabinete João.
Um ponto adicional merece esclarecimento por parte da prefeitura de Nanuque. Em diversas viagens registradas no Portal da Transparência, o chefe de gabinete João aparece recebendo diárias ou reembolsos classificados sob rubricas de “despesas com locomoção e passagens”, ao mesmo tempo em que o Farofa News teve acesso a relatos por parte de membros da prefeitura que muitos desses deslocamentos, inclusive para Brasília, teriam sido realizados em veículo oficial da Prefeitura, conduzido pelo próprio João, acompanhando o prefeito.
Caso os deslocamentos tenham ocorrido integralmente em carro oficial – custeado pelo município, com combustível e manutenção pagos pela administração -, surge um questionamento sobre a compatibilidade entre o meio de transporte utilizado e o pagamento adicional de valores destinados a cobrir despesas de locomoção individual.
Assim, na prática, cada deslocamento duplicou o custo da viagem, mas não há nos registros no Portal da Transparência, de forma objetiva, quais atribuições específicas justificariam a presença simultânea de ambos em todas essas agendas.
O custo político das viagens
Com essas três reportagens podemos refletir sobre escolhas políticas adotadas pela prefeitura de Nanuque. A comparação com municípios maiores, como Teófilo Otoni e Ipatinga, mostra que o volume de viagens não é uma imposição automática ao cargo, nem uma condição inevitável para a captação de recursos. Prefeitos de cidades com população, orçamento e complexidade muito superiores conseguiram exercer a mesma função com custos significativamente menores.
Isso indica que há margem para decisões mais criteriosas. Em um município como Nanuque, onde a arrecadação é limitada, cada deslocamento precisa ser avaliado não apenas pela legalidade, mas pela sua real necessidade, pelo custo envolvido e pelo retorno efetivo para a população. Viagens frequentes, sobretudo quando acompanhadas por membros do alto escalão, ampliam o impacto financeiro de uma mesma agenda e exigem justificativas mais claras e objetivas.
O debate que se coloca não é sobre impedir o diálogo do prefeito com quem quer que seja, ou dificultar a busca por recursos fora do município, mas sim, sobre qual modelo de gestão se pretende adotar. Planejamento de agendas, racionalização de deslocamentos, uso de alternativas como reuniões remotas e definição de critérios públicos para acompanhamento de autoridades, são medidas que podem reduzir custos sem comprometer a atuação administrativa.
Da mesma forma, a transparência precisa avançar. O cidadão tem o direito de saber não apenas quanto foi gasto, mas por que foi gasto, quem participou de cada agenda e quais resultados concretos essas viagens produziram para a cidade.
Os números apresentados ao longo desta série não encerram o debate. Pelo contrário, mostram que há espaço para aprimorar decisões políticas, rever prioridades e fortalecer o controle social sobre o uso do dinheiro público. Em última instância, trata-se de alinhar o discurso de responsabilidade fiscal à prática administrativa e de garantir que cada Real gasto fora de Nanuque faça sentido para quem vive nela.
Nota da Redação: O Farofa News reitera seu compromisso com a imparcialidade e o jornalismo ético. O espaço segue aberto para que a administração municipal ou o servidor citado possam apresentar suas versões sobre os fatos, caso desejem. Qualquer manifestação enviada à nossa redação será incluída nesta matéria na íntegra.
