A CMPC, uma das maiores produtoras globais de celulose, com sede no Chile e operações consolidadas no Brasil, admitiu publicamente a possibilidade de transferir para o Paraguai seu ambicioso “Projeto Natureza”. Este grandioso empreendimento prevê a construção de uma megafábrica de celulose avaliada entre R$ 25 bilhões e R27 bilhões. A potencial realocação surge devido a um prolongado impasse no licenciamento ambiental no Rio Grande do Sul, que, segundo a companhia, reflete uma “falta de previsibilidade regulatória” no ambiente de negócios brasileiro. A declaração da CMPC gera preocupação no setor industrial, colocando Brasil e Paraguai em disputa direta por um dos maiores investimentos privados previstos para a indústria de base florestal na América do Sul. A definição sobre o destino do projeto é aguardada até o final de 2026.
O Projeto Natureza e o entrave regulatório no Rio Grande do Sul
A grandiosidade do investimento e os desafios locais
O “Projeto Natureza” é um dos mais estratégicos empreendimentos na pauta da CMPC e no cenário sul-americano da indústria de celulose. Ele visa a construção de uma unidade industrial com capacidade para produzir impressionantes 2,5 milhões de toneladas de celulose por ano, o que a posicionaria entre os maiores complexos do gênero no continente. Com um investimento total estimado variando entre R$ 25 bilhões e R$ 27 bilhões, o projeto representa um impulso significativo para a economia da região onde for instalado, gerando milhares de empregos diretos e indiretos, impulsionando a cadeia de suprimentos e contribuindo substancialmente para a arrecadação de impostos.
Contudo, a concretização do projeto no Brasil esbarra em um complexo processo de licenciamento ambiental no Rio Grande do Sul. A CMPC, através de seus diretores, tem classificado a situação como um exemplo claro de “falta de previsibilidade regulatória”. A morosidade e a incerteza nos trâmites burocráticos são apontadas como os principais fatores que levam a empresa a considerar alternativas. A exigência da CMPC é de que haja uma definição clara e um avanço concreto no licenciamento até o final de 2026. Caso essa condição não seja atendida, o grupo planeja formalmente avaliar o Paraguai como destino alternativo para o investimento, um movimento que sinaliza a urgência da situação e a rigidez do prazo estabelecido pela multinacional. A indústria de base florestal, um pilar econômico em diversas regiões do Brasil, clama por um ambiente regulatório mais ágil e transparente para garantir a competitividade e a atração de capital.
O novo mapa da atração de investimentos na América do Sul
O crescente apelo do Paraguai versus as fragilidades brasileiras
A sinalização da CMPC para um possível deslocamento do “Projeto Natureza” revela uma mudança profunda na lógica de atração de investimentos industriais na América do Sul. Por muitas décadas, o Brasil foi considerado o destino natural e quase incontestável para megaprojetos nos setores de celulose, papel e madeira plantada. Essa preferência se justificava pela combinação de um clima favorável, que proporciona alta produtividade florestal, e a vasta disponibilidade de terras adequadas para o cultivo de eucalipto, além de uma robusta infraestrutura logística e um mercado consumidor expressivo.
No entanto, o Paraguai tem emergido como um concorrente cada vez mais atraente, capitalizando justamente sobre os pontos onde o Brasil tem acumulado críticas recorrentes de investidores. A previsibilidade regulatória, a velocidade dos processos de licenciamento ambiental e a segurança jurídica são critérios cada vez mais valorizados por grandes grupos industriais, e nesses quesitos o país vizinho tem demonstrado maior eficiência. Executivos do setor de celulose e florestal apontam que a disputa por este investimento não é um evento isolado, mas sim um reflexo de um movimento mais amplo de reposicionamento industrial na região, impulsionado pela corrida global por investimentos em bioeconomia e pela busca por ambientes de negócios mais estáveis e menos burocráticos. A agilidade na tomada de decisões e a clareza nas regras são elementos cruciais para a concretização de investimentos de tamanha magnitude e prazo.
A migração de empresas brasileiras: um fluxo consolidado
O caso da CMPC se insere em um contexto de fluxo já consolidado de migração de capital produtivo do Brasil para o Paraguai. Dados recentes indicam que mais de 230 empresas de origem brasileira já operam no Paraguai sob o regime de maquila desde 2007. Este regime, que oferece incentivos fiscais significativos para empresas que importam insumos, transformam-nos e exportam os produtos acabados, tem sido um grande chamariz. Somente entre 2024 e 2026, 26 novas operações de empresas brasileiras foram iniciadas no país vizinho, reforçando a tendência.
A performance dessas companhias é notável: as dez maiores maquiladoras de origem brasileira no Paraguai registraram uma receita de exportação de US$ 1,3 bilhão em 2025, evidenciando o volume e o sucesso de suas operações. Grupos brasileiros de renome, como Karsten (têxtil), Kidy (calçados) e Dass (calçados e artigos esportivos), já instalaram ou expandiram suas operações no Paraguai. Os atrativos são claros: os encargos trabalhistas no Paraguai giram em torno de 12%, um contraste marcante com os cerca de 80% observados no Brasil. Além disso, os custos operacionais totais podem ser até 40% menores, o que representa uma vantagem competitiva inegável para as empresas que buscam otimização e maior rentabilidade em um cenário econômico global desafiador. Essa migração, embora benéfica para o Paraguai, levanta questões importantes sobre a capacidade do Brasil de reter e atrair investimentos, dada a perda de competitividade em aspectos cruciais do ambiente de negócios.
Conclusão
O dilema enfrentado pela CMPC com seu “Projeto Natureza” no Rio Grande do Sul é mais do que um desafio pontual; ele se configura como um sintoma da complexidade e da incerteza regulatória que, por vezes, marcam o ambiente de investimentos no Brasil. A possível realocação de uma megafábrica de R$ 27 bilhões para o Paraguai ilustra vividamente a mudança no cenário de atração de capital produtivo na América do Sul, onde fatores como previsibilidade, agilidade e segurança jurídica ganham proeminência. Para o Brasil, a situação serve como um alerta urgente sobre a necessidade de reformas e aprimoramentos significativos em suas políticas de licenciamento e incentivos, a fim de evitar a perda de competitividade e a fuga de oportunidades de desenvolvimento industrial e econômico que são cruciais para o seu futuro.
Perguntas frequentes
O que é o Projeto Natureza?
O Projeto Natureza é um ambicioso plano da CMPC, gigante chilena do setor de celulose, para construir uma megafábrica com capacidade de produção de 2,5 milhões de toneladas de celulose por ano. O investimento estimado para este empreendimento está entre R$ 25 bilhões e R$ 27 bilhões, posicionando-o como um dos maiores complexos industriais do gênero na América do Sul.
Por que a CMPC considera levar o projeto para o Paraguai?
A CMPC avalia a transferência do Projeto Natureza para o Paraguai devido a um prolongado impasse no processo de licenciamento ambiental no Rio Grande do Sul, Brasil. A empresa classifica essa situação como um exemplo de “falta de previsibilidade regulatória” e estabeleceu o final de 2026 como prazo para uma resolução. Caso contrário, a realocação será formalmente considerada.
Quais as vantagens do Paraguai para atrair investimentos industriais?
O Paraguai tem se destacado por oferecer um ambiente de negócios com maior previsibilidade regulatória, agilidade nos processos de licenciamento ambiental e maior segurança jurídica em comparação ao Brasil. Além disso, o país oferece custos operacionais significativamente menores, incluindo encargos trabalhistas de aproximadamente 12% (contra cerca de 80% no Brasil) e uma redução de até 40% nos custos gerais, especialmente através do regime de maquila.
Este movimento da CMPC é um caso isolado?
Não, o movimento da CMPC faz parte de uma tendência mais ampla de migração de capital produtivo do Brasil para o Paraguai. Mais de 230 empresas brasileiras já operam sob o regime de maquila no país vizinho desde 2007, com um fluxo crescente de novas instalações e expansões nos últimos anos, impulsionado pelos incentivos fiscais e pela maior competitividade de custos.
Mantenha-se informado sobre os desdobramentos deste e de outros grandes projetos industriais na América do Sul. Assine nossa newsletter para análises aprofundadas e notícias exclusivas sobre investimentos e o cenário econômico da região.
