Em um movimento que cria uma notável divergência diplomática na América do Sul, o presidente boliviano, Rodrigo Paz, declarou recentemente que organizações criminosas transnacionais como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) representam uma forma de terrorismo. Essa classificação de facções criminosas como terroristas contraria abertamente a postura do governo brasileiro, liderado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A declaração de Paz foi feita logo após um encontro bilateral com Lula no Palácio do Itamaraty, em Brasília, onde, paradoxalmente, os dois países assinaram um acordo de cooperação robusto para combater o crime organizado transnacional. A posição boliviana alinha-se, contudo, com uma iniciativa impulsionada pelo governo dos Estados Unidos, adicionando uma camada de complexidade às relações regionais e à estratégia global de combate ao crime.
Divergência diplomática e o enquadramento do crime organizado
A visão boliviana e a pressão americana
A firmeza do presidente boliviano, Rodrigo Paz, ao qualificar o PCC e o CV como entidades terroristas, reflete uma percepção de que a atuação dessas facções transcende o mero crime organizado, mergulhando em um “ciclo de terrorismo”. Segundo Paz, as ações diárias dessas organizações justificam tal enquadramento, que ele considera central para a missão de sua nação no combate a máfias e crimes transfronteiriços. Essa postura boliviana ecoa uma bandeira levantada pelo ex-presidente dos EUA, Donald Trump, com quem Paz se reuniu no início de março, durante a cúpula “Escudo das Américas”, realizada em Miami.
A insistência dos Estados Unidos em classificar grupos como o PCC e o CV como terroristas visa a conceder-lhes um arcabouço legal que permitiria a imposição de sanções mais severas e uma atuação mais agressiva de Washington no combate ao narcotráfico na região. Para os EUA, tal classificação abriria portas para operações mais incisivas e coordenadas, fundamentadas em uma doutrina antiterrorismo, o que potencialmente justificaria ações unilaterais ou militares fora do território norte-americano, em colaboração ou não com os países-alvo.
A cautela brasileira e seus receios
O governo brasileiro, por outro lado, demonstra forte resistência à ideia de classificar o PCC e o CV como organizações terroristas. Fontes do Palácio do Planalto e do Itamaraty avaliam que tal medida poderia criar um precedente perigoso. Há uma preocupação latente de que a nova classificação possa servir de pretexto para uma intervenção externa mais pronunciada e autônoma dos Estados Unidos na região amazônica e em outras áreas de fronteira, sob o manto do combate ao terrorismo. Essa atuação mais agressiva de Washington, com a possibilidade de justificar operações militares ou outras ações unilaterais, levanta sérias questões de soberania e autonomia regional.
Além das implicações geopolíticas, existe um receio considerável de que o enquadramento das facções como terroristas seja explorado politicamente pela oposição interna durante períodos eleitorais, gerando debates polarizados e potentially comprometendo a segurança jurídica e estratégica do país. O chanceler Mauro Vieira já havia expressado formalmente essa preocupação ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, em uma conversa telefônica, evidenciando a gravidade que o tema possui para a diplomacia brasileira.
O impacto das operações e a geopolítica regional
A captura de Sebastián Marset: um caso exemplar
A complexa dinâmica entre as políticas de combate ao crime e a diplomacia regional foi dramaticamente ilustrada pela recente prisão do narcotraficante uruguaio Sebastián Marset, 34 anos. Apenas três dias antes do encontro de Paz com Lula, forças policiais bolivianas capturaram Marset em Santa Cruz de la Sierra e o extraditaram imediatamente para os Estados Unidos. Marset era um dos cinco narcotraficantes mais procurados pela DEA, a agência antidrogas americana, que havia oferecido uma recompensa de US$ 2 milhões por informações que levassem à sua detenção. Ele foi detido junto a membros de sua equipe de segurança, e armas de grosso calibre foram apreendidas na operação.
A prisão e extradição de Marset foram prontamente elogiadas pelo Departamento de Estado dos EUA. Em nota pública, o Escritório de Assuntos Internacionais de Narcóticos e Aplicação da Lei declarou que “o reinado de terror e caos de Sebastian Marset chegou ao fim”, atribuindo o sucesso à liderança do presidente Rodrigo Paz e à crescente cooperação entre as forças policiais dos EUA e da Bolívia. A nota destacou ainda que o “Escudo das Américas” está tornando a região “mais segura e forte”, reforçando a narrativa de sucesso da iniciativa americana. As investigações revelaram que Marset possuía conexões diretas com o PCC, tendo aparecido em vídeo em 2025 ao lado de indivíduos encapuzados exibindo símbolos da facção brasileira e ameaçando iniciar uma guerra na fronteira entre Brasil, Bolívia e Paraguai. Ele também coordenava o envio de cocaína da Bolívia para o Brasil e mantinha vínculos com a máfia italiana ’Ndrangheta para remessas à Europa. Em maio de 2025, Santa Cruz de la Sierra já havia sido palco da prisão de Marcos Roberto de Almeida, conhecido como Tuta, apontado como um dos chefes do PCC.
Equilibrando alianças e acusações
Questionado sobre a aparente dualidade de manter interlocução simultânea com Washington e Brasília, o presidente Paz defendeu que a prioridade de sua política externa reside unicamente nos interesses da Bolívia. “Me preocupa mais que a Bolívia entenda seu novo papel. Se em oito dias a Bolívia pode estar com Trump e com Lula, deem um crédito à Bolívia”, afirmou, sublinhando a autonomia e a flexibilidade diplomática de seu país. Contudo, essa flexibilidade não impediu tensões: durante o encontro em Brasília, Paz acusou o Brasil de “exportar violência” para o país vizinho, uma declaração que gerou incômodo nos bastidores da reunião.
A participação de Paz na cúpula “Escudo das Américas”, promovida por Trump em Miami, já havia sido um ponto de discórdia, uma vez que o evento excluiu notavelmente Brasil, México e Colômbia, países-chave na região. Apesar das divergências evidentes, Brasil e Bolívia avançaram na assinatura de um acordo de cooperação abrangente em Brasília. O pacto prevê ações conjuntas para prevenir e reprimir tráfico de drogas e de pessoas, contrabando, roubo de veículos, lavagem de dinheiro, mineração ilegal e crimes ambientais. Ele também estabelece parceria para a busca de fugitivos e o intercâmbio de informações entre as forças policiais. O presidente Lula, ao comentar o acordo, enfatizou que “Brasil e Bolívia estão unidos na preocupação com a segurança pública” e que o compromisso “renova nosso compromisso com o combate ao crime organizado dos dois lados da fronteira”. Além da segurança, os países também firmaram acordos de cooperação turística e interconexão elétrica entre o Departamento de Santa Cruz e Corumbá.
Cenário complexo no combate ao crime transnacional
A postura divergente entre Bolívia e Brasil quanto à classificação de facções criminosas como terroristas ilustra a complexidade do combate ao crime organizado transnacional na América do Sul. Enquanto a Bolívia, alinhada aos EUA, busca ferramentas mais contundentes sob a égide antiterrorista, o Brasil adota uma abordagem mais cautelosa, preocupado com as implicações geopolíticas e de soberania que tal classificação pode acarretar. As recentes operações de sucesso, como a prisão e extradição de Sebastián Marset, demonstram a necessidade inadiável de cooperação regional, independentemente das abordagens conceituais. Este cenário exige uma diplomacia ágil e pragmática para que os países consigam, juntos, enfrentar os desafios impostos pelas redes criminosas que operam sem fronteiras, priorizando a segurança e a estabilidade da região.
Perguntas frequentes (FAQ)
1. Qual a principal divergência entre Brasil e Bolívia sobre o crime organizado?
A principal divergência reside na classificação de facções como o PCC e o CV. O presidente boliviano, Rodrigo Paz, as considera organizações terroristas, enquanto o governo brasileiro, liderado por Lula, se opõe a essa classificação.
2. Por que o Brasil se opõe à classificação de PCC e CV como terroristas?
O Brasil teme que essa classificação abra um precedente legal para sanções e uma atuação mais agressiva e unilateral dos Estados Unidos no combate ao narcotráfico na região, com risco de intervenções militares ou outras ações fora do território americano, além de possível exploração política interna.
3. Como a prisão de Sebastián Marset se relaciona com este debate?
A prisão e extradição de Sebastián Marset pela Bolívia para os EUA, elogiada por Washington, exemplifica a colaboração boliviana com a agenda americana de combate ao narcotráfico e ao crime organizado. Marset tinha ligações diretas com o PCC, destacando a atuação transnacional das facções.
Para uma compreensão aprofundada das complexas dinâmicas que moldam a segurança e a política externa na América do Sul, continue acompanhando as análises e atualizações sobre o combate ao crime organizado e as relações diplomáticas na região.
